A Experiência que Previu o Nosso Futuro

Desde o século XIX que circulavam teorias sobre os limites do crescimento demográfico e sobre o que poderia acontecer quando uma população cresce mais depressa do que a sua capacidade de organização.
A Experiência que Previu o Nosso Futuro

O Inferno Perfeito

Imagine um paraíso. Dispensadores de comida sempre cheios. Conforto climático controlado. Sem doenças. Sem predadores. Sem qualquer forma de escassez. Espaço para milhares viverem em paz. Uma equipa de cientistas construiu a utopia dos ratos e, a 9 de Julho de 1968, introduziu quatro pares reprodutores no que baptizaram de Universo 25.

Em dois anos, a população explodiu. No dia 560, atingiu o máximo de 2.200 ratos, bem abaixo da capacidade total do recinto, que era de 3.840. Continuava a haver espaço. Continuava a haver comida. Continuava a haver água. E, no entanto, a partir desse ponto, não nasceu um único rato que conseguisse sobreviver até à reprodução.

Em 1973, o último rato morreu. Todos tinham desaparecido. Apesar das condições perfeitas, toda a sociedade colapsou numa espiral de insanidade, violência, desvios comportamentais, abandono materno e, por fim, extinção.

O último rato morreu em 1973. Em 2025, começamos a parecer-nos com eles.

No fim deste texto, reconhecerá em si, nos seus amigos e na sua cidade comportamentos idênticos aos observados nos derradeiros dias do Universo 25. Não será agradável. E não será possível ignorá-los depois de os ver.

O que foi o Universo 25? A Experiência Explicada

John B. Calhoun não era um investigador marginal. Trabalhava no National Institute of Mental Health dos Estados Unidos e, em 1968, já dedicava duas décadas a estudar o que acontece quando uma população é libertada das restrições normais da sobrevivência. O Universo 25 foi a sua obra-prima, a 25.ª iteração de uma experiência que vinha aperfeiçoando desde os anos 40.

A montagem era meticulosa. Um recinto quadrado com 2,7 metros de lado, subdividido em 256 compartimentos individuais. Cada compartimento tinha tudo o que um rato poderia desejar: material para ninho, dispensadores automáticos de comida, bebedouros que nunca secavam. A temperatura era mantida exactamente nos 20 graus Celsius. A doença fora eliminada. Os predadores eram impossíveis. Calhoun construíra o Jardim do Éden.

Desde o século XIX que circulavam teorias sobre os limites do crescimento demográfico e sobre o que poderia acontecer quando uma população cresce mais depressa do que a sua capacidade de organização. A partir dos anos 50 estas preocupações voltaram a ganhar força, em especial a tensão entre dois cenários teóricos. Por um lado, a ideia clássica, maltusiana, de que populações, quando libertas de forças reguladoras como escassez, doença ou competição, tendem a expandir-se até ao ponto de ruptura social. Por outro, a visão mais optimista de uma sociedade de abundância, onde a eliminação das dificuldades materiais permitiria resolver a maior parte dos problemas colectivos.

Foi neste cruzamento que Calhoun se posicionou. As suas experiências serviam para observar, de forma controlada, o que acontece quando uma comunidade vive num ambiente onde todos os recursos essenciais existem em quantidade ilimitada e onde nenhum obstáculo externo impõe travões naturais. O Universo 25 foi a tentativa mais ambiciosa de testar se a ausência de escassez conduz a equilíbrio social ou se, pelo contrário, revela tensões que passam despercebidas enquanto a população é pequena.

Introduziu oito ratos, quatro machos e quatro fêmeas, todos jovens e saudáveis. Durante os primeiros 104 dias, fizeram o que os ratos fazem. Exploraram, acasalaram, criaram crias. A população duplicava a cada 55 dias. Era a Fase A, o período de adaptação inicial. Tudo parecia perfeito.

Seguiu-se a Fase B, o boom. Entre os dias 104 e 315, a população cresceu de forma exponencial. A cada vinte dias, os números duplicavam. Formaram-se famílias. Definiram-se territórios. Surgiu uma estrutura social. Machos dominantes controlavam apartamentos e haréns. Machos subordinados encontravam os seus próprios espaços ou resignavam-se à periferia. Mas todos tinham um papel. Todos tinham uma função.

A Fase C começou por volta do dia 315. A população continuava a crescer, mas algo se alterara. O espaço começava a faltar, não o espaço físico, mas o espaço social. Havia apenas um número limitado de territórios que um macho dominante conseguia defender, apenas um número limitado de lugares na hierarquia. Machos jovens, ao atingir a maturidade, encontravam todas as posições já ocupadas. Tinham comida. Tinham abrigo. Mas não tinham função, não tinham como provar o seu valor, não tinham caminho para o acasalamento e a reprodução.

Estes machos jovens tornaram-se aquilo que Calhoun chamou “the pool”, o grupo marginal. Agrupavam-se no centro do recinto, apáticos e sem rumo. Quando tentavam envolver-se, eram ou demasiado agressivos ou completamente submissos. Alguns tornavam-se hiper-violentos, atacando fêmeas e crias indiscriminadamente. Outros desistiam por completo.

As fêmeas também não escaparam. Muitas começaram a abandonar as crias antes do desmame. Outras tornavam-se agressivas e atacavam as próprias crias. A mortalidade infantil disparou. Surgiu o canibalismo. Os rituais normais de acasalamento desintegraram-se. O acasalamento tornou-se frenético, indiscriminado, muitas vezes violento ou simplesmente deixou de ocorrer.

E depois apareceram “os Belos”.

Estes ratos, maioritariamente machos mas também algumas fêmeas, retiraram-se totalmente da vida social. Deixaram de lutar. Deixaram de cortejar. Deixaram de acasalar. Comiam, bebiam, dormiam e limpavam-se obsessivamente. A sua pelagem era perfeita, sem marcas de confrontos. Eram saudáveis, bem alimentados e completamente indiferentes ao caos ao redor. Tinham desistido.

A Fase D, a fase da morte, começou por volta do dia 560. A população atingiu o pico de 2.200 indivíduos e começou a descer. Mas aqui está o ponto essencial: o espaço voltara a existir. Os recursos continuavam abundantes. As condições físicas mantinham-se perfeitas. No entanto, nenhum rato novo conseguia integrar-se no grupo reprodutor. Os Belos nunca regressaram à sociedade. As fêmeas que abandonaram a maternidade nunca voltaram a assumir esse papel. O tecido social rasgara-se e já não podia ser reconstruído.

No dia 1.780, restavam apenas alguns sobreviventes. Pouco depois, silêncio. O último rato morreu sozinho num espaço capaz de sustentar milhares.

(Os números exactos dos dias variam ligeiramente nos escritos de Calhoun, mas a sequência é idêntica.)

A Descoberta Central: Não Era Sobrelotação, Era Falta de Sentido

A conclusão óbvia seria a sobrelotação. Ratos a mais, espaço a menos, agressão fora de controlo. Mas Calhoun rejeitou essa explicação e os dados confirmaram-no. No pico populacional, os ratos usavam menos de metade do espaço disponível. Nos últimos dias, o recinto estava praticamente vazio. Os Belos podiam ter-se dispersado, reclamado territórios, recomeçado do zero. Não o fizeram.

Calhoun chamou a isto “a morte do espírito antes da morte do corpo”. Criou o termo “behavioral sink” para descrever o que acontece quando se dá a um animal tudo o que precisa, mas nada pelo qual tenha de lutar. Os ratos não sofriam de falta de comida ou de espaço. Sofriam de falta de propósito.

Em todas as sociedades de ratos saudáveis que Calhoun estudara, os machos lutavam por território. As fêmeas escolhiam os parceiros com cuidado. As crias eram criadas dentro de estruturas sociais estáveis. Estas lutas eram difíceis, muitas vezes brutais, mas criavam sentido. Um macho que conquistava território ganhava algo. Uma fêmea que criava uma ninhada com sucesso realizava algo. Havia vencedores e vencidos, mas todos tinham um papel.

No Universo 25, os papéis desapareceram. A geração inicial estabeleceu territórios, mas os seus descendentes herdaram abundância sem esforço. Já não havia compartimentos vazios por reclamar, nem fêmeas por cortejar, nem desafios a superar. E uma vez quebrado o guião, uma vez que os jovens cresceram sem enfrentar as lutas fundamentais da vida dos ratos, nunca aprenderam a fazê-lo. Não conseguiam.

Calhoun chamou a isto “morte ao quadrado”. Primeiro, a morte do papel social. Depois, a morte do indivíduo. Os Belos eram a expressão máxima deste fenómeno: vivos no corpo, mortos no espírito, incapazes de cumprir os imperativos biológicos que moldaram a espécie durante milhões de anos.

Chamou à condição “convivência patológica”, um estado em que indivíduos vivem rodeados dos seus semelhantes, mas sem ligação significativa. Os ratos nunca estavam fisicamente sós. Estavam sempre solitários.

2025: Removemos os Mesmos Limites Que os Ratos Perderam

Falemos de nós.

Abundância Sem Esforço

“A invenção da utopia material pelo homem concedeu-lhe a oportunidade de cometer suicídio psicológico.” — John B. Calhoun

Os ratos do Universo 25 nunca tinham de trabalhar pela comida. Ela aparecia automaticamente, sempre suficiente, sempre gratuita. Nunca enfrentavam o inverno. Nunca tinham de fugir a predadores. Nunca tinham de tomar as decisões difíceis que moldaram os seus antepassados: arriscar a fome ou recuar, lutar ou fugir, prover ou morrer.

Nós temos entregas ao domicílio por aplicação. Refeições que chegam à porta com alguns toques num telemóvel, preparadas por outros, entregues por outros, pagas talvez com salário, talvez com cartão de crédito, talvez pelos pais, talvez por apoios do Estado. A comida nunca é escassa. O esforço é nulo.

Temos climatização, aquecimento central e ar condicionado. Podemos viver em cidades quentes ou frias e nunca sentir verdadeiramente o clima. Já não é preciso cortar lenha nem racionar combustível. A temperatura é sempre perfeita.

Temos “cheques-estímulo”, projectos piloto de rendimento básico universal em várias cidades, subsídios de desemprego prolongados por anos, registos de invalidez que triplicaram numa geração e que incluem não só os fisicamente incapazes, mas também muitos que desistiram mentalmente. Temos as caves dos pais transformadas em residência permanente para adultos que nunca chegam a lançar voo.

Digo que tudo isto é mau? Não. Digo que quem usa estes apoios é preguiçoso? Não. Digo sim, que removemos de forma sistemática a ligação entre esforço e sobrevivência. E isso tem consequências.

Consequências Adiadas ou Canceladas

No Universo 25, nenhum rato morreu de fome por desistir. Os Belos não contribuíam para a sociedade, não defendiam território, não se reproduziam, não ajudavam a cuidar das crias, mas comiam tão bem como todos os outros. Não havia qualquer penalização pela retirada.

Nós temos moratórias e suspensões de crédito que, durante a pandemia, permitiram a milhares deixar de pagar rendas ou prestações sem risco imediato de despejo ou execução. Em muitos países europeus, essas protecções prolongaram-se muito para além da crise. Sem consequências.

Temos bancos e grandes empresas classificadas como “sistémicas”, as “too big to fail”. Fazem apostas arriscadas, acumulam prejuízos enormes e os contribuintes acabam a suportar o resgate. Os administradores continuam a receber prémios milionários. Sem consequências.

Temos inflação de classificações. Em vários países europeus, a taxa de alunos que termina o ensino secundário ou superior com notas altas aumentou de forma tão absurda que a distinção deixou de distinguir. Muitos passam sempre, independentemente do mérito. Todos são excelentes, o que significa que ninguém é.

Temos troféus de participação, avisos de conteúdo sensível, espaços seguros, equipas de resposta a preconceito. Construímos um aparato inteiro destinado a garantir que ninguém tem de enfrentar fracassos significativos ou exclusão social.

Mais uma vez: não digo que tudo isto seja perverso. Digo que partilham um traço comum. Eliminam o ciclo de retroacção entre escolhas e resultados, a segunda lei de Newton. E quando se remove esse ciclo, o comportamento muda de formas difíceis de prever.

A Ascensão dos Belos Humanos

Na fase final do Universo 25, cerca de vinte por cento dos machos tornaram-se Belos. Retiraram-se de toda a interacção social. Não lutavam. Não acasalavam. Limitavam-se a existir. A cuidar da aparência. A comer. A dormir. Perfeitamente saudáveis no corpo, completamente mortos no espírito.

Agora pegue no telemóvel. Percorra as redes sociais. Quantas pessoas conhece que se encaixam nesta descrição?

O Japão tem um nome para eles: hikikomori. Mais de um milhão de jovens que abandonaram a sociedade por completo, às vezes durante anos, vivendo nos quartos de infância, sustentados pelos pais ou por apoios públicos, relacionando-se com o mundo apenas através de ecrãs.

A Coreia do Sul tem um fenómeno semelhante. A Itália também. E nós também.

Nos Estados Unidos, cerca de quinze por cento dos homens jovens entre os dezoito e os vinte e quatro anos relatam jogar videojogos seis ou mais horas por dia. Não trabalham. Não estudam. Não namoram. Estão a fazer raids no World of Warcraft ou a ganhar níveis no Fortnite. Os seus índices de vitórias são excelentes. A sua higiene é muitas vezes impecável, afinal têm tempo de sobra para longos banhos e rotinas de cuidados. Mas não tocaram noutro ser humano há meses.

Temos homens de trinta anos a viver em sofás dos pais, a aperfeiçoar speedruns, discords e personagens online. Temos criadoras de plataformas eróticas que ganham fortunas sem sair do apartamento, a encenar sexualidade sem risco nem vulnerabilidade de intimidade real.

Temos o scroll infinito. Influenciadores de Instagram com luz perfeita, pele perfeita e vidas perfeitas, a transmitir beleza para milhões enquanto vivem sozinhos em estúdios, a pedir jantar por aplicação.

Estes são os Belos humanos. Bem alimentados. Bem cuidados. Retirados. E estão por todo o lado.

Colapso da Maternidade

No Universo 25, um dos fenómenos mais perturbadores foi a degradação do comportamento maternal. As mães deixaram de construir ninhos adequados, abandonavam as crias antes do desmame ou voltavam-se contra elas, chegando a matá-las e por vezes a praticar canibalismo, mesmo enquanto amamentavam a ninhada seguinte. A mortalidade infantil aproximou-se dos cem por cento nas fases finais.

Estamos a assistir a uma versão disso em tempo real.

A depressão pós-parto atingiu níveis alarmantes. As taxas de natalidade colapsaram em praticamente todo o mundo desenvolvido. E quando se pergunta às mulheres jovens porque não têm filhos, as respostas são reveladoras. “Não quero trazer crianças para este mundo.” “Não consigo suportar os custos.” “Quero concentrar-me na carreira.” “Valorizo a minha liberdade.”

Estas respostas não estão necessariamente erradas, nem é o meu propósito julgá-las. Mas repare no que têm em comum: centram-se na experiência da mãe, não na existência da criança. A maternidade passou de vocação a opção de estilo de vida, uma opção que cada vez menos mulheres escolhem.

Colocamos bebés em creches com 6 semanas de vida, mais cedo do que qualquer sociedade humana histórica e mais cedo do que qualquer investigação sobre apego recomendaria, porque fazer o contrário significaria sacrificar progressão profissional. Medicalizámos e externalizámos praticamente todos os aspectos dos cuidados parentais. Tornámos mais fácil do que nunca evitar a maternidade e mais difícil do que nunca abraçá-la plenamente.

E as mulheres que têm filhos? Muitas relatam sentir-se isoladas, sem apoio, julgadas tanto pelo mundo profissional como pelo mundo parental, presas num papel que a sociedade simultaneamente idealiza e desvaloriza.

As ratinhas deixaram de cuidar das crias quando esse cuidado deixou de ter significado social. Estamos a fazer o mesmo, apenas de forma mais lenta.

Hiperestimulação Sem Reprodução

Nos últimos dias do Universo 25, o comportamento sexual tornou-se bizarro. Alguns ratos tornaram-se pansexuais, tentando acasalar com tudo o que se movia, independentemente do sexo ou da receptividade. Outros deixaram simplesmente de acasalar, apesar de estarem rodeados de potenciais parceiros.

Vivemos na cultura mais sexualizada da história e na época em que menos sexo se pratica.

A pornografia é omnipresente, gratuita, infinita na variedade, acessível em qualquer dispositivo a qualquer momento. Já existe pornografia em realidade virtual. Já existem “namoradas” geradas por inteligência artificial. Já existem bonecas sexuais que respondem ao toque.

E no entanto, os jovens têm menos relações sexuais do que qualquer geração das últimas décadas. A percentagem de homens com menos de trinta anos que não teve relações no último ano triplicou desde 2008. Anda perto dos trinta por cento. Entre mulheres, os números são mais baixos, mas crescem rapidamente.

Temos aplicações de encontros sem fim. Opções infinitas, deslizes infinitos, possibilidades infinitas. E no entanto, namorar transformou-se num exercício de evitamento mútuo. Matches que não levam a lado nenhum. Conversas que morrem. Pessoas que desaparecem após semanas de troca de mensagens. O paradoxo da escolha tornou-se paralisia.

Separámos a estimulação sexual da ligação sexual. Hoje é possível obter a descarga de dopamina da excitação sem tocar noutra pessoa, sem vulnerabilidade, sem risco de rejeição ou intimidade.

Os ratos tinham a mesma possibilidade. No fim, a maioria escolheu-a.

Convivência Patológica

No auge, o Universo 25 albergava 2.200 ratos num espaço concebido para 3.840. Nunca estavam sós. Estavam sempre rodeados. E no entanto eram a população mais solitária que Calhoun alguma vez observara.

Temos oito mil milhões de pessoas no planeta. Cerca de 4 mil milhões vivem em cidades, e as estimativas indicam que esse número continuará a crescer. Estamos comprimidos em apartamentos, metros, escritórios, centros comerciais. Raramente estamos a mais de alguns metros de outro ser humano.

E somos a geração mais solitária de que há registo.

A solidão social duplicou nos últimos trinta anos. Os casos de solidão clínica triplicaram. A pessoa média relata ter menos amigos próximos do que em qualquer outra época. No Japão, milhares morrem sozinhos todos os anos nos seus apartamentos, descobertos apenas semanas ou meses depois, quando o cheiro alerta os vizinhos.

Estamos rodeados de pessoas e ligados a ninguém. Temos milhares de seguidores nas redes sociais e ninguém a quem telefonar às duas da manhã. Vivemos em prédios com centenas de moradores e não sabemos o nome deles.

Isto é convivência patológica. Isto é o behavioral sink. Não gente a mais em espaço a menos, mas gente a mais numa sociedade que deixou de funcionar.

Sinais de Alarme que Já Ultrapassámos (O Ponto de Não Retorno)

Eis o que deveria assustar qualquer pessoa. No Universo 25, o ponto de não retorno chegou muito antes de alguém se aperceber.

A última concepção que produziu descendência capaz de sobreviver e reproduzir ocorreu por volta do dia 560. A população continuou a crescer durante algum tempo, impulsionada pela dinâmica anterior, mas a estrutura social já tinha colapsado. Nenhum rato nascido depois do dia 560 conseguiu reproduzir-se. Nenhum.

Os Belos nunca voltaram a envolver-se. Mesmo quando o espaço voltou a existir e os recursos continuaram abundantes, permaneceram isolados. Uma vez quebrado o guião social, permaneceu quebrado. O conhecimento de como ser rato, lutar por território, cortejar, criar crias, perdeu-se. E, uma vez perdido, não pôde ser reaprendido.

Agora olhe para nós.

A taxa de fertilidade da Coreia do Sul é de 0,68 filhos por mulher. Isto não é “abaixo do nível de substituição”. Isto é colapso civilizacional. A este ritmo, cada geração terá apenas um terço da dimensão da anterior. Três avós, um neto. A aritmética não sustenta uma sociedade.

O Japão está nos 1,2. A Itália nos 1,2. A Espanha nos 1,2. Não são quedas temporárias. São tendências sustentadas, com décadas, e estão a acelerar.

E aqui está o pormenor crucial: estas taxas continuam a descer mesmo quando as supostas causas estão a ser abordadas. A habitação está a ficar mais barata no Japão devido ao declínio populacional. O trabalho à distância reduziu a densidade e o stress da vida urbana. As políticas de apoio à família foram ampliadas. E, ainda assim, a natalidade desce.

Não é dinheiro. Não é espaço. Não é política.

O guião está quebrado.

Os jovens destes países relatam cada vez mais que simplesmente não vêem sentido em ter filhos. Não é “não posso pagar”. Não é “talvez um dia”. É só… não vêem sentido. O papel de ser pai ou mãe, que todas as sociedades humanas sempre trataram como central na vida adulta, tornou-se opcional. Pitoresco. Algo que os outros fazem.

Já passámos do dia 560?

Considere: uma mulher nascida na Coreia do Sul em 2025 atingirá a idade fértil por volta de 2043. Se as tendências actuais se mantiverem, e mantiveram-se durante trinta anos, crescerá num mundo onde quase ninguém tem filhos. Não terá irmãos. Terá poucos primos. Raramente verá bebés ou crianças pequenas. Todo o contexto social da reprodução estará ausente da sua experiência de vida.

Escolherá ela ser a excepção? Os Belos não escolheram.

O que Impedia o “Behavioral Sink”? (Os Antídotos que Estamos a Desmontar)

Então o que impede isto? O que manteve as sociedades humanas afastadas do Universo 25 ao longo de dez mil anos?

Escassez. Risco. Competição. Exclusão. Preços reais. Estigma social. Direitos de propriedade. A necessidade de proporcionar valor aos outros para sobreviver.

Em todas as sociedades tradicionais, se não trabalhava, não comia. Se não contribuía, era excluído. Se não conseguia atrair um parceiro, não reproduzia. Se não conseguia defender a sua propriedade, perdia-a. Não eram falhas. Eram características estruturais.

Sim, estas características eram frequentemente brutais. Sim, produziam sofrimento real. Sim, excluíam e puniam pessoas que, num mundo mais compassivo, gostaríamos de ajudar.

Mas também produziam sentido. Um homem que cultivava a sua terra e alimentava a família conquistava algo real. Uma mulher que criava filhos até à idade adulta realizava algo inegável. Havia vencedores e vencidos, mas todos tinham um papel, todos enfrentavam desafios, todos tinham de lutar.

Mesmo no sistema de mercado mais duro, estas forças mantêm-se. É preciso fornecer valor, através do trabalho, da troca, da perícia, para sobreviver. Não há dispensadores automáticos de comida. O fracasso tem consequências. O sucesso tem recompensas. O ciclo de feedback mantém-se intacto.

O Ocidente moderno está a desmontar sistematicamente tudo isto em nome da compaixão e da abundância.

Estamos a remover a escassez através do assistencialismo e da abundância. Estamos a remover o risco através de redes de segurança e resgates. Estamos a remover a competição com prémios de participação e inflação de classificações. Estamos a remover a exclusão através de leis anti-discriminação e políticas de inclusão. Estamos a remover preços reais com subsídios e perdão de dívidas. Estamos a remover o estigma social através da aceitação e validação de todos os estilos de vida. Estamos a remover direitos de propriedade através de tributação e redistribuição.

Repito: não digo que todas estas mudanças sejam maléficas. Muitas aliviam sofrimento real. Muitas corrigem injustiças reais.

Mas todas têm um traço comum: enfraquecem ou eliminam a ligação entre escolhas e consequências. Reduzem a necessidade de lutar. Aproximam-nos da condição dos ratos: tudo providenciado, nada exigido.

E os ratos extinguiram-se.

Uma Pergunta, Não um Sermão

Não tenho soluções. Não tenho um programa político. Isto não é um apelo ao regresso a um passado imaginado, nem um manifesto para uma ideologia específica.

É apenas uma pergunta, ecoando através de cinquenta anos, vinda de um rato condenado num recinto perfeito:

“Se uma espécie receber tudo o que necessita e nada pelo qual tenha de lutar, escolherá sempre a extinção disfarçada de conforto?”

Pense na sua cidade esta noite. As torres brilhantes. Os supermercados abertos vinte e quatro horas, totalmente abastecidos e iluminados. Os estafetas a atravessar todos os bairros a qualquer hora. Os apartamentos climatizados onde pessoas isoladas passam horas a ver ecrãs, a encomendar, a consumir.

Percorra essas ruas amanhã de manhã. Conte os carrinhos de bebé.

O Universo 25 foi construído como utopia. Tornou-se cemitério. John Calhoun passou os últimos anos da vida a tentar avisar-nos. Morreu em 1995, largamente ignorado, o seu trabalho descartado como irrelevante para a sociedade humana.

Mas olhe à sua volta. Olhe para os Belos nos quartos de infância, para as mulheres que optaram por não ser mães, para os jovens que optaram por não participar em nada. Olhe para as taxas de fertilidade. Olhe para as estatísticas de solidão. Olhe para o retraimento.

Os ratos não ficaram sem comida.

Ficaram sem razões. Sem propósito.

E estamos a construir o mesmo paraíso, conveniência após conveniência, consequência após consequência eliminada, papel após papel tornado opcional.

O Universo 25 nunca terminou.

Apenas escalou.


Nota: de acordo com os direitos dos animais e as normas éticas actuais, experiências como a do Universo 25 não seriam permitidas hoje em dia. Este texto destina-se a explorar as lições comportamentais e sociais derivadas da experiência, não a endossar práticas que causam sofrimento aos animais.

Referências

Paper de John B. Calhoun: Death Squared: The Explosive Growth and Demise of a Mouse Population


Photo by Matthew Mejia on Unsplash


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